Juventude-Atitude por Tiago Ortaet

por - 05 março


Juventude é uma fase transitória da vida humana quando abordada pelo viés científico, biológico, mas quando o ponto de reflexão parte de um observatório cultural podemos ir muito mais além nessa simbiótica relação entre essa importante fase da vida e suas relações cotidianas ao longo de outros ciclos subsequentes.

Não se limitar aos aspectos da plenitude do corpo, da vivacidade da mente e até da impulsividade do protagonismo juvenil são algumas variáveis imprescindíveis para darmos um passo adiante na efetiva construção de novos líderes comunitários, políticos, culturais, e etc. Ter espírito jovem!

Aí está mais um subtema tamanhamente importante: protagonismo (de fato). Jovem não é e jamais pode ser massa, número, escudo ou qualquer outro abjeto que cerceie seu direito de opinar, construir, refletir. Juventude rima com atitude não por acaso.

Comecei a estudar o jovem quando eu também muito jovem, aos 19 anos, entrei numa sala de aula pela primeira vez para lecionar numa escola pública da periferia de Guarulhos. Jovem gosta de reinventar sua própria catarse e eu como qualquer outro estava disposto a reinventar a minha bem cedo. Catarse no seu sentido amplificado, no sentido de quem se liberta (e liberta os outros) do que o aflige, nesse caso, libertação da ignorância, da intolerância banhada de senso comum e da escuridão de fronte à luz das ideias, da criatividade, da pluralidade. Minha arma para esse espectro? A ARTE.

Ao longo de quase 15 anos em sala de aula, convivendo com mais de uma dezena de milhares de jovens, evidentemente estive diante de uma grande diversidade de posturas, desafios, diferentes envolvimentos, de sucessos e fracassos pedagógicos, mas de tantas experiências as que mais me chamaram atenção foram as situações em que os jovens foram empoderados com autonomia, responsabilidades e consequências, estímulos e confianças inseridos em contextos de construção de novas lideranças.

Como reflete o pensamento do filósofo francês Jean Paul Sartre; todos nós somos seres políticos, não fazemos política apenas em partidos políticos, mas no convívio social. A partir dessa máxima, minha ação político-pedagógica sempre se pautou principalmente na realidade dos meus estudantes e no contexto geral da cidade, estado e país. O que sua realidade dialoga com o cenário nacional? (ponto de interrogação que revira o nosso consciente)

Assim realizamos importantes provocações culturais, como as seis edições anuais da VIRADA CULTURAL INDEPENDENTE na periferia da cidade,  outro importante projeto que se consolidou nesses 15 anos de atividades é nossa TRUPE ORTAÉTICA DE TEATRO COMUNITÁRIO que oferece oportunidade de estudar teatro para quem não tem como pagar um curso, mais uma ação de autonomia cultural com os jovens é nosso projeto FREI FASHION WEEK que discute a moda alheia aos padrões estéticos impostos pela mídia dentre outras ações que lidero pautadas na pedagogia da autonomia de Paulo Freire (na prática).

Vivi e presenciei grandes experiências educativas protagonizadas por muitos amigos educadores que levam à sério a formação cidadã dos jovens, que saem de suas zonas de conforto para irem além.

Uma frase ficou muito marcada nesse processo de ensino aprendizagem “Não me traga apenas o problema, traga junto propostas de soluções” Nesse estímulo de resoluções para diferentes desafios do trabalho em equipe, debatíamos juntos a melhor saída para os problemas que identificávamos (tão comuns na vida cotidiana)
Não poderia ser uma decisão imposta, unilateral, mas uma análise coletiva.

Promovemos, eu e meus estudantes, um profundo e complexo projeto de políticas culturais dentro da escola pública, projeto este que rompeu as fronteiras dos muros da escola e foi apresentado, estudado e debatido em universidades da Hungria, Portugal, Cabo Verde, Cuba, dentre outros.

Refletir na prática coletiva usando a teoria para a práxis do ensino público embasado em humanismo e afetividade foi sem dúvida o principal motor desse projeto de lideranças. Projeto permanente e que dá bons frutos.

Pois bem, apresentado brevemente o lugar de onde falo, seguimos nosso pensamento...

Ainda diante dessa conjuntura que proponho de que o jovem é um “tubo de ensaio” que pode refletir muitas coisas diante das experiências que vivencia, lanço a nossa análise outra inquietante frase, dessa vez de Aristóteles, um dos maiores pensadores de todos os tempos “A política não deve ser a arte de dominar, mas de fazer justiça”. Qual jovem gosta de receber cabresto? Qual jovem não se incomoda de ser dominado, oprimido? De ser usado apenas quando convém aos autointitulados “líderes”? Debate em roda, horizontalidade nas decisões do grupo, tutoria com responsabilidade, limites e consequências; são alguns dos alentos para essa geração.

A áurea da juventude pede vez e voz (de fato) com espaço humanista para que aprenda com seus acertos e com seus erros, sim, jovem também erra, como nós adultos, mas que não sejam lançadas foices demagógicas sob suas cabeças e que tenham oportunidade de se avaliarem constantemente.

Experiências da adolescência, da juventude, são levadas para toda vida.

É fato que a maturidade para alguns vem tardiamente e para outros chega de forma precoce, muitas vezes imposta pelas dificuldades que a vida trás, entretanto seja de um jeito ou de outro a consciência se dá prioritariamente pela experiência, pela práxis, sobretudo pelo repertório adquirido dia a dia.

Líderes desequilibrados, por exemplo, não constroem boas relações com seus jovens. Bom senso e respeito formam uma dupla dinâmica e produtiva na construção de grupos independente de faixa etária.

A cultura precede tudo, inclusive a educação formal, acesso à cultura dá asas e potencializa sonhos, abre horizontes; embasados na tolerância e respeito, na identidade e alteridade.

A justiça social plena no país virá das mentes plurais, com base na cultura. Cultura em seu sentido lato, que abrange um leque enorme de experimentos, onde a arte nasce. Cultura como um catalisador de competências e habilidades.

Uma mente adolescente encontra facilmente ecos em qualquer liderança que dê autonomia que a idade tanto carece, mesmo que em alguns casos, possa ser pura manipulação travestida de autonomia, não é por acaso que muitos jovens são seduzidos pelo mundo do crime, por exemplo, pois a relação de poder (paralelo) dá a esses órfãos de “líderes do bem” a enganosa sensação de progresso pessoal, de independência.

Poucos governos pelo Brasil levam a sério essa questão primordial de desenvolvimento humano e social através da cultura. Durante muitos anos de minha infância eu vivi ao lado de um ponto de tráfico de drogas, mas além da minha família de mãe viúva que lutou bravamente para criar os filhos, a arte foi sem dúvida um dos fatores que me fez não aceitar o caminho da criminalidade.

Todo jovem quer ser visto, quer ser ouvido, quer ser tratado em sua singularidade, quer se identificar com um grupo, para que ele tenha orgulho de pertencer a uma comunidade, seja um time de futebol, uma igreja, um grupo de teatro, um grupo de amigos... O papel do poder público é ter a EDUCAÇÃO e a CULTURA como alicerces fundamentais para esses jovens. Permitir-lhes oportunidades. Uma frase que digo desde os primórdios de minha carreira docente é “meu sonho é por justiça social através da cultura” e cabe um mundo de possibilidades nessa frase.

A mais recente resolução de políticas e programas para a juventude da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU destaca dentre outras coisas a urgente necessidade de inserção dos jovens aos bens imateriais como capacitação, fomento de boas práticas e inserção no mercado de trabalho e tudo isso passa pela oportunidade de relações e convivência social saudáveis, relacionais, coletivas...

Independente da idade cronológica tenho convicção de que o que me faz jovem é a relação que cultivo com as pessoas e com minhas bandeiras de luta, espero que mesmo sendo eu um jovem a mais tempo, que daqui algumas primaveras meus futuros cabelos brancos me deem ainda mais brilho para lutar por políticas públicas para as gerações de futuros líderes que virão. Um Brasil melhor depende de nós, AGORA! 


Tiago Ortaet é arte/educador, diretor de teatro e escritor, atualmente está diretor de cultura da cidade de Guarulhos e professor universitário

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