REVIVER HISTÓRIAS ORTAÉTICAS - 2014

por - 14 março


HISTÓRIA

LIÇÃO DE ASAS

História de: Tiago Ortaet
Autor: Tiago Ortaet
Publicado em: 11/07/2014

SINOPSE

Na minha militância permanente pela Arte, Cultura e Educação muitas histórias de encher os olhos eu já vivi. Essa é mais um lindo momento pedagógico de minha vida!!! Só concebo educação através do AFETO!!! Já dizia um artista amigo meu "Fundamental é mesmo o amor é impossível ser feliz sozinho"

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HISTÓRIA COMPLETA

Houve um princípio, mas não deixamos que tivesse o fim. Houve um final que de tanto start recomeçou outro com asas mais seguras. Melhor de mim, do outro, de tudo e de todos, melhor quem insiste assim, pois a insistência é a letra que não cabe no caderno, o tom que acorde nenhum dá conta, fé que nasce das cinzas, nesse caso, das penas... Relação que suplanta, do riso ao verbo, do choro ao rasante do pombo. Ali estavam todos os atrasados do sinal da escola. Precisavam de um sinal que voasse mais alto do que aquele que tocara há longos dez minutos. Estavam atrasados também na percepção de respeito à natureza, alguém em algum momento havia atrasado seus sensos de humanidade para o tic tac da consciência. Eles corriam atrasados, mas quem disse que criança tem hora marcada pra brincar? Criança não se atrasa, se atira, se lança, mesmo sem saber voar; a imaginação decola. O céu é menor do que o pátio da escola. Brincadeiras têm diferentes relações e contextos em diferentes esferas, mas todos buscam o mesmo voo. Mas insisto: faltava alguém acertar aqueles relógios mirins... Por puro acaso ou incerteza, eis que estavam no lugar certo para acertarmos esses ponteiros de asas... Á princípio o grupo de alunos estava correndo atrás do pobre pombo que talvez por engano pousou no pátio da escola e não via saída. Mesmo a saída estando diante de seus olhos, o anseio quase suicida do pombo de querer achar a saída lhe impedia de conseguir. Os berros daquelas crianças desvairadas pela farra de ver outros tombos do pombo eclodiam como ameaças... Sim, havia um prefácio espacial de confronto desleal. O pombo temia. Em fração de segundos pensei em cena-poesia. Valei-me meu espírito entusiasta! Tinha máquina arrelia na mão pra registrar a transgressão, mas não consegui. Eu estava meio pombo de mim mesmo... Os meninos corriam com voracidade, gritando, correndo, tentando arremessar cadernos e mochilas no pombo já de labirinto perecível. Eu gritava aos seis, mas só tinha desprezo de meia dúzia. Nessa conta a equação era da experimentação com dolo. Eu estava com uma arma na mão. Essa arma tinha lente objetiva e grande angular, obturaDOR, tinha um foco bem definido, como os olhos dessas crianças que tinham alvo certo. Diferente dos olhos miúdos do pombo que estonteava pelos azulejos do pátio e acuado voava sem rumo. O desespero do pombo era humor da crueldade desses pequenos de vazio grande. Sim, sem pudores, havia ali um vazio, que estava prestes a ser ocupado. Certa vez ouvi dizer que nascemos vazios e vamos nos completando com as vivências de nossos dias, com as pessoas que passam por nós, pelas que ficam, pelas que vão, as que amamos ou queremos distância, tudo é relação. Mas esse copo é de conteúdo infinito, ele nunca enche. Até que minutos correram mais que pés de moleques em captura de pássaro, mas levaram horas pra passar. Até que escadas abaixo e voos acima, até que gritos rasantes e palavras provocantes, o pombo cedeu. Foi vencido, mas venceu! Foi de propósito, tenho certeza! Os seis inquietos, sem pena do pombo, o fizeram de refém. Mas aí que uma pergunta salvou a pena. “E agora o que vocês farão???” Todos os meninos se olham e não encontram resposta. Um deles já com a quase depenada na mão, olha para os outros com a mesma resolução de uma álgebra biológica. Sem encontrar sentido para outra resposta me responde o que lhe parecia trivial: “é melhor soltar” Por não acharem outras respostas todos os outros colegas se satisfazem com a proposta e caminham juntos para soltar o pombo do lado externo da escola. A consciência de não machucar o pombo ficou no ar... E ficará por todo tempo, ficará mais tempo do que durou a correria pela caça ao pombo, ficará por toda vida. Talvez, se os relógios internos continuarem a ter ajustes frequentes, até que cada um por si só possam ter controle de dominar seus próprios compassos e desejos, teremos starts sem hora certa, por que toda hora é hora de crescer até alcançarmos a plenitude da criança. Os relógios de cada um refutaram as razões e o pombo foi dar aula em outra escola, pois o pobre coitado acumula cargos. Hoje em dia é difícil até ser um pombo!
Tiago Ortaet

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