Nas últimas 72 horas, explodiu em minha timeline as hashtages #elenão e #homenscontrabolsonaro, se somando à #mulherescontrabolsonaro como uma tentativa de posicionamento público contra o candidato do PSL à presidência da república e líder em todas as pesquisas de intenção de voto. À parte a incoordenação (vamos combinar aí, pessoal), me pareceu útil explicar o seguinte: não sou contra Bolsonaro. Me parece que dizer que não sou contra Bolsonaro, inclusive, é a melhor forma de dizer por que não votarei e não votaria jamais em Jair Bolsonaro.
Ilumina essa conversa o conteúdo da BBC Brasil medindo, tabulando e comparando os discursos e os projetos do candidato ao longo de 27 anos de vida pública. É revelador; não deixe de ler neste link.
Jair Bolsonaro foi eleito como um representante dos militares para defender os direitos (ou os privilégios, dependendo do seu ponto-de-vista) dos militares. Ponto. Você pode ser contra, como eu sou contra, a ideia de organizar a vida política brasileira como um jogo de várzea entre bancadas que colocam seus interesses próprios acima dos interesses coletivos – como fazem a bancada ruralista, a bancada evangélica ou sindicalista. Eu sou contra as perversões do sistema representativo, mas não posso ser contra as pessoas que, pensando diferentemente de mim, se organizam para representar aqueles que os elegeram. Não sou contra esse Bolsonaro “original”. É do jogo democrático.
Sobre esse assunto, recomendo fortemente o episódio “O crescente poder das bancadas temáticas no Congresso” do podcast “Politiquês”, do Nexo:
Bolsonaro era isso e nada mais do que isso. Sua vida era subir na tribuna para defender o direito à pensão para herdeiros de militares, os benefícios para militares e outras “causas” que só interessam aos militares, mesmo à custa do interesse público. Eram essas suas ambições: receber auxílio moradia, votar de acordo com o que é interessasse à sua classe (mesmo se fosse junto com a “comunista” Luiza Erundina), viver de recursos públicos, acumular aposentadorias, eleger a esposa como vereadora, depois o irmão, depis arrumar emprego para os filhos na máquina política e levar aquela vida típica dos parlamentares que a gente só sabe que existem em votação de impeachment transmitida em horário nobre na televisão. Eu sou contra a ideia que os brasileiros fazem da política como uma classe especial, como se Brasília fosse o Olimpo. Mas não foi Bolsonaro que inventou isso. Também não sou contra esse Bolsonaro.
O capitão começou como vereador no Rio de Janeiro. No meio do mandato concorreu e se elegeu deputado e lá esteve pelos 25 anos seguintes. Dos seus 171 projetos de lei e 470 proposições apresentadas, somente dois se transformaram em lei – um que isentava produtos de informática do IPI e outro que autorizava o uso da fosfoetanolamina. Seu projeto aprovado “mais importante”, segundo ele mesmo, foi o voto impresso, que o Supremo considerou inconstitucional.
E assim seguiria sua vida pacata de deputado federal não fosse a mídia.
O que mudou o curso de Bolsonaro (e talvez mude o curso do Brasil) ocorreu em 2011, quando o programa CQC resolveu transformá-lo numa espécie de ícone do que havia de mais bizarro em Brasília. Se você não se lembra, o programa CQC era a atração da Band que partiu do humor de constrangimento do Pânico na TV adicionando a ele pitadas de crítica política – o que, combinado ao figurino terno-e-gravata, dava ares de “inteligência” ao programa. “O CQC teve um papel principal (no fenômeno Bolsonaro)”, admitiu Monica Iozzi ao canal Love Treta apresentado pelo também ex-CQC Rafael Cortez. “Pra gente ele era um cara tão ignorante, tão patético, sem nenhum tipo de competência e com valores morais tão deturpados, que ele era engraçado.” Ao que Rafael Cortez completa: “Ele era um personagem”. Confira o vídeo completo (a pergunta sobre Bolsonaro está em 5’28):

Além de transformá-lo em atração constante de sua “cobertura política”, os vídeos do CQC renderam muito material para a aurora dos compartilhamentos em redes sociais – Bolsonaro percebeu, e passou ele próprio a gravar as entrevistas que concedia e depois comparar com a edição do programa, rendendo ainda mais material para o Facebook, desta vez questionando, com razão, os métodos de edição da “imprensa”.
Em 2013, no início das manifestações contra corrupção, Joaquim Barbosa citou seu nome como o único que votou contra a Reforma da Previdência e a Reforma Tributária, apesar da “interferência dos pagamentos do Mensalão” junto aos partidos. O deputado usou o “Blog da Família Bolsonaro” para agradecer o que entendeu como o “reconhecimento público e idôneo” do então ministro do STF. Mesmo que, tempos depois, Barbosa declarasse o capitão como uma das três maiores ameaças ao Brasil (sendo as outras duas “um golpe de Temer” e “um golpe militar”), Bolsonaro agora era uma ilha de honestidade em meio ao lamaçal de corrupção.
O CQC saiu do ar em 2015, coincidentemente no mesmo mês em que iniciou-se o processo de impeachment contra a presidente Dilma Roussef. Em seu sétimo mandato como deputado, o nome de Jair Bolsonaro começa a ser ventilado como potencial candidato a presidente. O discurso do capitão muda: os interesses militares caem de 2,5 vezes por discurso para 0,76 por discurso, segundo o levantamento da BBC. Termos como “tortura”, “Cuba”, “esquerda” e “gays”, por sua vez, aparecem 7 vezes mais.
Numa campanha cerceada pelas leis mais rigorosas de financiamento, o PSL percebeu que suas declarações e polêmicas combinavam com o mundo de compartilhamentos das redes sociais.
Queria mostrar uma coisa para você. Um estudo feito pelo jornalista André Forastieri a respeito do Buzzfeed. Forastieri já foi diretor de novos negócios do R7 e estudou bem as novas mídias os novos comportamentos de mídia. E há alguns anos montou uma longa apresentação explicando o Buzzfeed, a partir de várias fontes – incluindo o Buzzfeed. Diz assim: “O Buzzfeed não faz posts para falar com todo mundo. Só com maluco!” e diz também: “O Buzzfeed fornece a esses maníacos uma plataforma para eles expressarem sua personalidade, sua identidade, sua superioridade até”.
Separei algumas telas pra gente refletir o quanto somos agentes e o quanto somos peões nessa floresta de “opiniões”, “consciência” e “engajamentos” das redes sociais:
E, claro, no ritmo ditado pelo Buzzfeed move-se toda a velha imprensa, incluindo as que querem ser famosas por seu jornalismo. Em busca de títulos e imagens e abordagens que sejam muito compartilhadas, que viralizem, que virem trend topic. E esta é a cobertura da corrida presidencial de 2018.
Voltando ao nosso assunto: Bolsonaro já era uma estrela criada pelo CQC e percebeu que poderia ser mais do que um personagem. O capitão se tornou a “plataforma” para que esses “maníacos” expressassem sua “superioridade” por meio das redes sociais. E, em cada oportunidade que teve desde então, em cada microfone que lhe direcionassem, passou a criar conteúdo para ser compartilhado ferozmente tanto pelos que sonham com a intervenção militar quanto pelos que a temem; tanto pelos misóginos quanto pelas feministas, tanto para os que o odeiam quanto para os que o amam, tanto pelos 26% que querem votar nele quanto para os 43% que não votariam nele “de jeito nenhum”. É exatamente assim que funcionam as redes sociais.
Me deixe falar um pouco como alguém de comunicação: Bolsonaro não é um grande comunicador. Mas numa confluência gigantesca, suas habilidades naturais se encaixaram perfeitamente no tipo de mídia que estamos consumindo nos anos 2010. Por isso, também neste sentido, não sou contra Bolsonaro. Sou, isso sim, radicalmente contra a espetacularização do jornalismo, contra a mídia feita de frases fortes e “lacradoras”, contra o “esse tem coragem”, contra os vídeos em que fulano “cala a boca” de sicrano, contra os parâmetros de cliques e compartilhamentos como medição de eficiência de conteúdo, contra esse câncer de um conteúdo de entretenimento inconsequente e irresponsável feito “para maníacos”. Foi isso que criou e amplificou Bolsonaro, e não o próprio Bolsonaro.
Chegamos a 2018 com um personagem cristalizado na cabeça das pessoas. A capa da Época, sobre “gays de direita” é exemplar: apesar de se dizerem constrangidos com a forma com que o candidato se refere publicamente a homossexuais, os “gays de direita” cristalizaram a ideia de que Bolsonaro é a solução para a segurança pública brasileira, e esta, com sentido, é uma preocupação fundamental para o público LGTB.
Agora: baseando-se em quê eles concluíram isso? Resposta: em memes, declarações bombásticas e frases fortes. Não há nada em três décadas de vida pública que minimamente aponte para concretizar a esperança dos “gays de direita”. Nem na vida pública, nem em seu já lendário programa de governo, definido por Bernardo Mello Franco como tendo a profundidade de um “trabalho escolar” em power point.
A estratégia do PSL, claro, é aprofundar-se o mínimo possível para que o próprio público crie o Bolsonaro que lhe é conveniente. E assim temos hoje um ícone da lisura na política mesmo tendo votado contra a proibição do nepotismo no setor público; um ícone na renovação em Brasília, mesmo tendo votado a favor do aumento de salário para deputados e senadores da aposentadoria especial para políticos; um ícone do antipetismo, mesmo tendo votado com o PT contra o plano Real; e um ícone do combate à violência mesmo que, como bem disse Geraldo Alckmin, sua única experiência com segurança pública seja “ter sido assaltado”.
É um mito, no sentido de que ele existe apenas na cabeça de seu eleitor. Por isso tampouco sou contra esse Bolsonaro ideológico, que é fruto único e exclusivo das aspirações de uma parcela gigantesca do brasileiro. Seria ser contra essas pessoas que estão usando Bolsonaro não como representante, mas como plataforma para seu próprio sentimento de vingança contra o sistema político, contra a violência urbana e contra a corrupção.
Mas quem levou uma facada em Juiz de Fora foi o homem Bolsonaro, não o mito, não o personagem do CQC ou o conteúdo dos memes. Um homem que poderia ter morrido por causa de uma mídia que privilegia “os maníacos” em detrimento à informação e à reflexão, que transforma constrangimento em “crítica política”, uma mídia feita de sabatinas em horário nobre em uma busca constante pela lacração. Não posso ser contra o ser humano Bolsonaro. Pelo contrário, acho que ele deveria ter seu papel assegurado na discussão democrática. Por isso não sou #homenscontrabolsonaro.
Na guerra das hashtags, eu seria #elenão.
Porque uma coisa é admitir o direito de Bolsonaro ser Bolsonaro e entender o mecanismo que levou “um ser humano tão vil” (nas palavras da Monica Iozzi) a se transformar em um fenômeno das redes sociais. Outra coisa é admitir a possibilidade de entregar a presidência do Brasil, um país tão complexo, em seu momento mais complexo, nas mãos de alguém que, ainda que fosse “um homem bom” (como disse Lobão) teria tanta condição de nos liderar quanto a minha avó ou aquele querido tio do interior que tenta ganhar as discussões no almoço de domingo na base do grito.
Neste ponto, não há mais argumentação possível. Porque os axiomas vão falar mais alto, e vão falar a partir de clichês. “Ele é o remédio amargo que o Brasil precisa” (como se a história do Brasil não fosse uma sucessão de 500 anos de remédios amargos, golpes, contragolpes e salvadores da pátria “contra tudo o que está aí”); “Ele pelo menos não se aliou aos mesmos de sempre”, como se o presidente eleito, seja o Meirelles ou o Boulos, não fosse obrigado a negociar (ou “se aliar”) “com os mesmos de sempre” no minuto seguinte à foto presidencial; “Ele é a renovação”, como se ele não representasse o que a política brasileira tem de mais ineficiente e caricatural, dos votos por interesse aos parentes dependurados aos funcionários fantasmas aos benefícios à virtual improdutividade.
Como se a saída para uma das maiores crises políticas da história não fosse a boa política, mas a não-política.
A verdade é que, ilusões midiáticas à parte, personagens do CQC à parte, na corrida presidencial temos candidatos sem mancha de honestidade no currículo de verdade, temos liberais (ou “anticomunistas”) de verdade, temos gente com experiência na área da segurança pública de verdade. Não justifica o outro clichê, de que “apontar o ruim é fácil, quero ver apontar um bom”. Bolsonaro não. Ele não. #elenão.
Bolsonaro não é simplesmente o pior dos candidatos. Não é apenas a mistura da falta de experiência com a truculência com o despreparo com o preconceito. Ele é o risco de jogar o Brasil na maior e mais catastrófica aventura que um país tão machucado já teve. É tentar vingar-se de quem te traiu ateando fogo ao próprio corpo.
Por isso não sou contra Bolsonaro, apesar de ser contra todas as ferramentas que o transformaram em “mito”. Quero acolher o papel que lhe cabe num mundo democrático em que as ideias, inclusive as conservadoras, sejam bem-vindas à mesa. Mas para presidente, por favor, #elenão.