DE INEZITA AOS VIOLEIROS GUARULHENSES

por - 07 março


Não tem nada mais genuíno, relacional e que germina nos alicerces culturais de nossas gerações, do que os arabescos sonoros de uma viola, da cantoria dos velhos guerreiros calejados pelo tempo, dotados da preciosa sabedoria popular, dos detalhes dos nossos antepassados da roça, do interior do país, do migrante nordestino, de elementos que circundam todo folclore brasileiro, da cultura popular tão viva em nossos sentidos, dos acordes do sertanejo, da lida do trabalhador simples, principalmente em nosso imaginário afetivo.
Há alguns poucos anos atrás tive o privilégio de conhecer o coletivo cultural guarulhense “Orquestra de Violeiros Coração da Viola” que caminha pelas trilhas culturais de nossa identidade brasileira raíz por admiráveis quarenta anos.
Visitei um de seus ensaios e para minha surpresa, embora a trupe seja majoritariamente de idosos, há jovens interagindo, coexistindo no mesmo espaço e principalmente nas mesmas ideias de perpetuar o brilho nos olhos desses fazedores de cultura; uma oportunidade de troca simbólica de experiências diante da riqueza daqueles senhores. Uma relação também intergeracional, tão saudável que a arte proporciona para impulsionar na sociedade o respeito e a tolerância; sempre tão necessários, principalmente nos dias atuais.
Cada senhor ali presente, representava um pouco de meu pai, mesmo tendo pouco o conhecido de fato, já que tive pouca convivência, pois ele partiu quando eu tinha apenas 3 anos; inevitável não me lembrar dele, homem simples do sertão de Pernambuco, carregando a sabedoria popular da roça e o canto da razão na cidade grande.
Cada nota entoada pelo magistral grupo de violeiros me acolhia como filho... Eles tem essa capacidade de nos pegar no colo, da forma mais fraterna que existe e nos levar a um lugar onde a cultura é rumo certo; como Inezita tinha, como os grandes artistas têm.
Sou filho de retirantes nordestinos, que fugiram da seca e da fome do nordeste brasileiro na década de 70, somos frutos dessa geração incansável, trabalhadora e absolutamente cultural pelas vias da cultura popular; do artesanato de mestre Vitalino, da música caipira, do som da sanfona, do forró; enfim, tenho orgulho de ter nas veias sangue nordestino, como a maioria dos cidadãos guarulhenses que são nordestinos ou filhos deles.
Um grupo cultural que preserva suas origens e ruma com dignidade levando a cultura de seu país firmemente em 40 anos de estrada é digno de muitos aplausos, incentivo, fomento e reconhecimento. O grupo cultural “Orquestra de Violeiros Coração da Viola” recebe nesta data o prêmio “Inezita Barroso” oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, uma honraria recebida por poucos; fruto de uma vida dedicada às artes da patrona do prêmio, referência nacional de cultura popular e vem aclamar a trajetória cultural de um dos mais célebres grupos tradicionais do estado.
Parabéns a cada um dos integrantes da “Orquestra dos Violeiros” pelo mérito cultural dessa história e que os jovens se inspirem nesse e em outros marcos de construção coletiva da nossa cultura. (Texto Tiago Ortaet)

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