80 tiros e o calibre do ódio

por - 12 abril



Era uma vez uma família reunida em seu automóvel financiado, num domingo ensolarado, à caminho de um chá de bebê. Essa família na expectativa da chegada do que vai nascer, jamais poderia imaginar que teria seu caminho abreviado por um ponto final. Um não! Oitenta pontos finais de grosso calibre... Uma reticência interminável; tal qual o deboche do racismo impregnado na chuva de cápsulas, pólvora, cartuchos e dignidades caídas no chão. Uma barbárie em seu curso, enviesada, misturada em muitas plataformas e mentes. 

É uma mistura tão insana... A fábula do cidadão de bem é preocupante pelo rótulo que foi colocado. Insisto, o ódio é grife de mentes rasas e corações vazios desses tempos... 

No meio do caminho havia uma tropa, havia uma tropa no meio no meio do caminho...

Foram tantas tentativas de encerrar o trajeto que a mente-dejeto de um ser assassino nem reparou que no automóvel havia um pai de família, uma mãe desesperada, um idoso e um menino... 

O fardado não honrou a “mão amiga” lema de sua tropa, à uma família tradicional brasileira tão proclamada nesses tempos, provando o calibre da incompetência, desmedida, fúria e raízes de discursos odiosos. Ele feito bicho arisco ou encarnando um escrivão dos tempos de outrora, sem tino que metralha uma folha em branco com a velha máquina de datilografar barulhenta, numa sala escura, opulenta, sem nexo do que escreve e pingando ódio; nesse caso em pele escura, família que virou alvo na cidade insegura; numa via da zona norte, entregue à sorte que não chegou. A vida daquele cidadão que também era pai, que também era artista, sucumbiu defronte uma mente nazista, que fuzila, extermina e executa numa sociedade filha do caos. 

Atitude sintomática; um retrato de um pensamento cristalizado em nossa sociedade; mas diante da análise rasa que nos foi apresentada “... foi um engano” É um engodo! 

Os acontecimentos não são aleatórios, ocasionais ou avulsos na história; eles compõem todo cenário atual, um espectro de realidade que circunda nossos dias, que está implícito em comentários de redes sociais, que está explícito nas análises de autoridades e revelador na ausência de prontidão de quem se espera. Mas também comunicam muito sobre o antes e o depois do fato.  

Certas notícias ganham volúpia e repercussão por dizerem muito mais do que a força de seu acontecimento, por suas raízes, pelas causas e consequências... Certas notícias ganham o silêncio de alguns covardes que também fuzilam com canetas nas mãos ou os dedos no teclado do smarthphone.

O fuzilamento começou e em alguns segundos saiu do carro uma mulher em prantos; eles não pararam de atirar, saiu um idoso; eles não pararam, saiu uma criança, eles não pararam; a mulher gritava desesperada e eles também não pararam com o fuzilamento quando sorriram em deboche, quando mentiram no depoimento dizendo que responderam à uma injusta agressão. 

Abdico de qualquer eufemismo para minimizar essa execução sumária, covarde e simbólica... 

O ataque daqueles militares foi na periferia do Rio de Janeiro, li na rede social a eloquente frase carregada de ironia “um engano de 80 tiros não pegaria bem no Leblon “ por que vidas importam tão pouco hoje em dia? E nosso país segue sendo destaque internacional; lamento profundamente...
80 tiros de advertência na periferia do Rio, dos filhos desse solo és mãe gentil; pátria amada fuzil.

Tiago Ortaet
Abril de 2019

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