VERBO CUIDAR - artigo em homenagem à minha mãe na minha coluna no Jornal Guarulhos hoje

por - 09 agosto


VERBO CUIDAR

Como traduzir em palavras a relação de um filho com seus pais? Por mais mágico que seja a literatura, algumas situação ultrapassam o que pode ser descrito... 

Nem tudo são flores, mas são sim, os momentos-flores, os mais essenciais, que desabrocham no nosso sentimento de filho que zela pela passagem de quem nos trouxe à esse mundo, à quem nos concebeu a vida; o maior dos presentes.

O presente mais caro pra uma mãe ou um pai, não tem preço; mas é de um valor inestimável; está nas coisas mais simples, um café da tarde inesperado, uma surpresa num almoço de domingo, um caminhar num parque lembrando das fases mais difíceis, um telefonema só pra dizer “oi” ou um colo; mesmo quando já não cabemos mais naquele colo que um dia nos fez dormir.

Refletir sobre a relação com nossos pais é tarefa inevitavelmente de amores e dores... A estrada da vida vai se afunilando e chega um momento que já não recebemos mais seus conselhos, já não podemos mais leva-los onde a gente quer... 

Dói demais vê-la perder as forças dia após dia, corrói por dentro e chega à raiz da alma deixar de ouvir sua voz dizendo “leva a blusa por que vai esfriar” ou aquela bronca que a gente sabe que merece... 

Dilacera a nossa razão e se faz de emoção a gente se juntar diante de um corpo já tão frágil, em oração, pra dizer que esse elo não tem fim, mesmo após a morte.

Poetas do mundo inteiro já escreveram essa relação, compositores daqui e de lá já envolveram suas melodias nessa essência tão única; quantos livros já foram escritos contando trajetórias de amor incondicional entre pais e filhos? 

Incontáveis versos romantizam o sumo desse elo; o fato é que você pode até não vir a ser pai ou mãe nessa vida, mas todo mundo é filho; e estar diante desse olhar divino, que reluz amor no seu mais alto sentido é sem dúvida estar conectado com a razão de nossa existência.

Há poucos dias atrás eu me vi no brilho dos olhos dela pela última vez. Só quem já viveu esse abismo que se abre diante de nossos pés é capaz de entender o tamanho da dor. Um sábado gelado, em que eu tentava aproveitar aqueles últimos minutos beijando sua face, tentando aquecer seus pés e mãos com bolsas de água quente, cumprindo aquela promessa que fiz aos seis anos de idade, quando disse bem baixinho em seus ouvidos “vou cuidar da senhora pra sempre”. 

Foram mais de 6 anos em que eu abdiquei de muitas coisas por que tinha diante dos meus olhos meu maior compromisso: Cuidar dela! 

E nessa jornada foram muitas dificuldades, muitos momentos de desespero e encorajamentos entre eu e meus irmãos, meus companheiros que soubemos honrar o legado de nossos pais, com amor e zelo.

Minha mãe também foi pai por mais de 3 décadas em minha vida; seu amor instintivo me protegeu de muitos perigos, mas do meu maior medo, o medo de um dia não tê-la mais do meu lado, nem a voracidade materna foi capaz de proteger; assim é a vida, somos tragados com força para o destino... 

Ela partiu, num silêncio profundo que fez naquele leito de morte; mas não sem antes eu ter tido uma longa conversa no dia anterior. Sua lucidez de amor pelos filhos nem o Alzhaimer foi capaz de apagar. 

A nordestina mais amada por mim, foi cúmplice de minha arte durante toda sua vida; obrigado meu amor por me permitir ser quem eu sou, por tolerar minhas pinturas nas paredes de casa, por aceitar toda uma trupe de adolescentes ensaiando no quintal, obrigado por permitir o som no último volume e obrigado também por me proibir de fazer algumas coisas, que só você como a mãe que foi, conseguia ver o risco que eu corria.

Me lembro de uma situação, na década de 2000, em que ela levou debaixo do braço, para uma celebração religiosa, um exemplar de um jornal que havia publicado um de meus artigos sobre educação, na saída da missa ela parava algumas amigas e mostrava, toda orgulhosa, o jornal dizendo “olha só é meu filho que escreveu nesse jornal”. Hoje, eu pai de dois anjos, entendo melhor essa sensação de nos ver nos nossos filhos. Mamãe estou certo de nosso reencontro; mas até lá, vou cuidar aqui, do exemplo que a senhora me deixou: cuidar mais das pessoas do que das coisas.

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