CASA ORTAÉTICA DE HUMANIDADES LANÇA MANIFESTO CONTRA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM SUA INAUGURAÇÃO

por - 10 outubro



Não tem como falar sobre emponderamento feminino, violência contra mulher, feminicídio, e similares, sem falarmos de história. Não é de hoje que mulheres sofrem.... por serem mulheres! Isso porque desde que se tem os primeiros registros históricos, vivemos em uma sociedade patriarcal, ou seja, uma sociedade onde o poder é exercido por homens. E se olharmos sem muita atenção, podemos dizer que muita coisa mudou, que hoje mulheres podem trabalhar, atuar na política, ocupar cargos de liderança. Mas será que mudou tanto assim? 

O machismo estrutural incrustado nessa sociedade, continua inferiorizando a mulher e a reduzindo a um corpo violável, inferior, intelectualmente limitado, e cuja principal função de existência é sexual/reprodução E para entendermos o contexto em que a mulher está inserida, e enxergamos quão pouco evoluímos basta darmos uma refletida rápida sobre aspectos cotidianos. Podemos começar da infância, e da divisão por gênero dos brinquedos – onde para meninos são destinados brinquedos que estimulam a imaginação, que replicam profissões, que desenvolvem raciocínio, lógica e habilidades esportivas. Enquanto para meninas são destinados brinquedos que simulam atividades do lar, cuidados com a casa, crianças, e contos de fada. Desde a infância homens são ensinados que podem ser mais, enquanto meninas aprendem a gerir um lar. 

O machismo estrutural dá as caras ainda na infância, assim, escancarado como no caso dos brinquedos, mas também disfarçado, quando desde pequenos meninas ouvem pra sentar direito, se comportar igual “mocinha”... ou quando meninos ouvem que homem não chora, quando são ensinados a resolver questões com força física, e crescem achando que sensibilidade é sinônimo de fraqueza, e motivo de vergonha. Saindo da infância e passando pra adolescência, quem nunca ouviu a frase “Menina amadurece antes que menino, homem é mais infantil mesmo”. Homem é mais infantil ou a sociedade permite que ele se abstenha das obrigações e responsabilidades com menos cobrança? Mãe solteira que rala em 2, 3 empregos pra sustentar o filho, se vira entre os trabalhos e os cuidados de casa, quando deixa o filho com a vó pra sair pra passear e se divertir um pouco, é taxada do que? De vagabunda, claro. Negligente. Péssima mãe. Onde já se viu, se ausentar do seu posto de mãe para se divertir, que absurdo. Pai ausente, paga pensão porque é obrigado, um valor ridículo, que não cobre nem um terço das despesas, não dá um centavo a mais, pega a criança a cada 15 dias pra passar um final de semana. Leva no futebol, no churrasco com os amigos, tira foto, posta nas redes sociais, e é o que? Pai do ano, claro. Pelo menos tá pagando a pensão de fome, né? E aí a gente pode fazer uma lista grande de situações cotidianas, né? É a ofensa disfarçada de cantada, é a postura invasiva em uma abordagem de paquera, são os julgamentos pelo tamanho da roupa, é a pressão pela maternidade... Faz menos de cem anos que mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil. Faz pouco mais de 50 anos as conquistas por liberdades civis e direito ao controle de natalidade. E a verdade é que todas as conquistas importantes, que vieram a custas de tanta luta e sofrimento de centenas de mulheres, são sempre questionáveis. Conquistamos o direito de trabalhar fora, mas ainda ganhamos menos para exercer mesma função – ressaltando que essa diferença é mais presente em cargos mais altos – como os de gerência e diretoria. Podemos trabalhar fora, mas nas entrevistas de emprego nos perguntam se temos filho pequenos, se temos pretensão de engravidar recentemente, e constantemente perdemos oportunidades de trabalho porque a criação dos filhos ainda é vista como uma obrigatoriedade feminina, o que consequentemente, prejudicaria o desempenho profissional. Podemos trabalhar fora mas temos que lidar com mansplaining, e manterrupting, por exemplo. 

Manterrupting acontece quando um homem interrompe constantemente uma mulher, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase. Esse comportamento é muito comum em reuniões e palestras mistas, quando uma mulher não consegue concluir sua frase por ser constantemente interrompida pelos homens ao redor.

Mansplaining ocorre quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. O termo é uma junção de “man” (homem) e “explaining” (explicar). Em atos de mansplaining, um homem acha que sabe mais sobre um tópico do que uma mulher. Muitas vezes, essa expressão está ligada ao manterrupting – nesses casos, o homem interrompe a mulher para mostrar que sabe mais do que ela. Podemos trabalhar, mas ainda sofremos assédio sexual e moral. Podemos trabalhar, mas continuamos acumulando jornadas duplas, porque pouco mudou sobre a divisão de tarefas do lar. Podemos votar, mas seguimos sendo minorias nos cargos públicos – a ponto de ter que ser estabelecida uma cota mínima que os partidos devem cumprir. Podemos votar, mas vemos adesivos ridicularizando a ex-presidente, com as pernas abertas, colados nos carros como forma de protesto. Podemos votar, mas não temos uma participação ativa. Podemos votar, mas ainda são os homens que votam temas como projetos de lei de proteção à vítimas, descriminalização do aborto, suporte à vítimas de violência doméstica e sexual. Podemos votar e escolher representantes políticos, mas ainda não conseguimos nos estabelecer como esses representantes. Podemos votar, mas ainda são homens que decidem temas cruciais da vida das mulheres.

Conquistamos liberdade econômica, atuamos ativamente na economia, mas ouvimos discursos como o do PRESIDENTE MICHEL TEMER, em evento em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em março de 2017: “Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher […] ela é capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados e identificar flutuações econômicas no orçamento doméstico”. Ou seja, ainda ouvimos que nosso papel imprescindível é o de controle e orçamento do lar....

Conquistamos o direito de jogar futebol (o que era proibido HÁ APENAS 40 ANOS ATRÁS), mas não conquistamos o incentivo financeiro de patrocinadores. Conquistamos o direito de praticar esporte, mas ouvimos que mulher não nasceu pra isso, que esporte masculino é muito mais legal e por isso recebe mais dinheiro. Conquistamos o direito de frequentar Universidades, mas temos que ouvir que mulher se interessa menos por ciência.... Conquistamos o direito ao controle contraceptivo, mas não escapamos do julgamento que pune a mulher pelo prazer sexual. Mulher não nasceu pra ter prazer, mulher não pode querer e gostar de sexo, tá doido? Não, isso não é coisa de mulher direita, que se dá ao respeito. Isso é coisa de vagabunda, piranha. Mulher pode fazer sexo sim, mas só se for pra satisfazer um corpo masculino, para o seu próprio prazer aí, não, aí não está certo. Aí a sociedade vai julgar, vai condenar, e vai rotular. Porque a mulher não tem autonomia nem sobre seu próprio corpo. E é por isso que tantos homens se sentem no direito de agredir, violentar e até matar. A mulher, como um ser inferior, não tem vontade própria, e nem é digna de respeito. É apenas um objeto a serviço da sociedade patriarcal. Quantas vezes tivemos e temos que lidar com olhares desagradáveis, comentários invasivos disfarçados de elogios? Quantas vezes as roupas, o trajeto escolhido, ou qualquer outra variante insignificante foi usada pra culpabilizar a vítima pela violência sexual sofrida? Quantos julgamentos passa uma mulher que sofre violência doméstica, seja física e/ou psicológica, e não tem coragem de denunciar? “Ah, gosta de apanhar. Mulher de malandro. Falta de vergonha na cara”, e por aí vai.

A verdade é que ser mulher é já nascer presa. Presa numa sociedade que vai te julgar e te culpar, não importa qual seja a situação. Você vai ser julgada por ter deixado de seprocupar com sua aparência física, vai ser culpada pela escolha da sua roupa, por ter andado por um caminho pouco iluminado. Vai ser julgada por não ter sido boa esposa, por não ter tido a paciência necessária, e por não ter cuidado do marido como deveria. Você vai ser culpada por ter aguentado calada tanta violência física e psicológica, vai ser responsabilizada por não ter pedido ajuda. Muitas vezes, quando juntar todas as forças para gritar por socorro, vai ter que lidar com desconfiança e questionamentos. Ser mulher é ter que lutar diariamente para existir com dignidade, é ter que pensar 10x mais sobre nossa segurança e integridade física.

O Brasil é o 5º país em taxa de feminicídio, e para quem tem dúvida sobre o termo, caracteriza feminicídio o crime que é cometido pelo motivo da morte ser o fato da vítima ser mulher. Ou seja, quando homens não aceitam atitudes da mulher, sempre com motivação de posse, ou seja, por ciúmes, por não aceitar a separação, e assim, se vê no direito de tirar a vida. Algo como “Não é você que decide o que você faz da sua vida, sou eu quem decido, e se você não fizer o que eu quiser, você não vai viver”. Mulheres que sofrem esse tipo de crime não são vistas como seres humanos, são vistas como objetos de posse.
Dados do Fórum de Segurança Pública de SP apontam que em 2018, 536 mulheres foram agredidas POR HORA. O número de notificações de violência física contra mulheres causadas por seus cônjuges ou namorados, segundo o Ministério da Saúde, quase quadruplicou de 2009 a 2016 em todo o país. Uma das grandes barreiras ao combate é a tolerância social a esse tipo de violência.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2014, embora 91% dos brasileiros afirmem que “homem que bate na esposa tem de ir para a cadeia”, 63% concordam que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. Além disso, 89% dos entrevistados pensam que “a roupa suja deve ser lavada em casa” e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. O número de notificações de estupros por cônjuges ou namorados das vítimas cresceu quase sete vezes desde 2009. Foi exatamente nesse ano que a Lei 10.015 reconheceu o estupro marital — o crime também está previsto na Lei Maria da Penha e foi reconhecido como uma violação dos direitos humanos pela ONU em 1993. Até 2005, enquanto esteve em vigor o Código Penal de 1940, havia uma previsão que extinguia a punibilidade do crime de estupro “pelo casamento do agente com a vítima”. Na prática, existia a possibilidade de que um estuprador não fosse punido caso fosse casado com a vítima. O estupro, à época, era considerado um crime contra a honra (do homem, da família), e não uma violação do corpo feminino.

As notificações de violência por arma de fogo contra a mulher quase quadruplicaram desde 2009. O medo de especialistas é que, com a mudança nas regras para posse de arma, o número aumente. De acordo com o “Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil”, embora homens sejam mais frequentemente vítimas de armas de fogo do que mulheres, esse tipo de arma foi o meio mais usado nos 4.762 homicídios de brasileiras registrados em 2013. Foram 2.323 casos, o equivalente a 48,8%, seguido por objeto cortante/penetrante (25,3%), objeto contundente (8%), estrangulamento/sufocação (6,1%) e outros (11%).

E todos esses dados, apesar de alarmantes, e de serem importantíssimos, porque mostra que pouco a pouco cada vez mais mulheres consegue procurar ajuda e denunciar, ainda não são reais. Estima-se que o número verdadeiro seja ainda maior, porque uma parcela da população feminina não consegue denunciar – seja pela dificuldade em identificar um relacionamento abusivo, seja por dependência financeira do marido, ou medo.

Mas olhando para todo esse cenário, não adianta nos lamentarmos, temos que fazer o que fazemos desde sempre – lutar. E aqui acredito que a luta tenha que ser dividida a curto e a longo prazo. Temos que escolher representantes que vão defender nossos interesses, que vão lutar pela tão sonhada igualdade de gênero. Representantes que vão trabalhar por um sistema de proteção e acolhimento cada vez mais eficiente, que realmente ampare e proteja as vítimas. 

Mas também não devemos nos calar cada vez que virmos um comentário machista, seja ele de qual natureza for. Seja dito por um homem ou por uma mulher. Ninguém nasce machista, nem homem, nem mulher, a sociedade o faz assim, e da mesma forma, também pode ensinar o contrário. Não nos calemos, falemos para amigos, parentes, seja quem for. Como diz uma famosa frase na internet “A humanidade sempre teve medo de mulheres que voam. Sejam elas bruxas, sejam elas livres”. 

Desde que o mundo é mundo somos vistas como seres inferiores, incapazes de pensar, agir, ou decidir por conta própria. Desde sempre a luta feminista é ridicularizada, deturpada e diminuída. Mas nós não calamos e não nos calaremos, não abaixaremos a cabeça. Apesar de ainda termos um longo caminho pela frente, é inegável o quanto conseguimos evoluir. Que sigamos firmes e fortes, cientes de que nenhuma conquista é 100% segura, sempre haverá questionamento, sempre haverá dificuldades. 

A maior parte das nossas mães não foram criadas ouvindo sobre empoderamento feminino, machismo estrutural, sociedade patriarcal... Mas nós podemos discutir isso hoje, e mais ainda, podemos curar o mal pela raiz. Podemos ensinar nossos meninos e meninas sobre quais são os papeis de cada um na sociedade. Podemos ensinar sobre respeito, empatia e igualdade. Podemos quebrar tabus, desmistificar ideias retrógradas, desmontar preconceitos. O emponderamento feminino contra a violência doméstica não se limita a lutar apenas contra um agressor. Ainda que essa seja imediatamente de importância máxima. É necessário ter força e coragem para identificar e conseguir sair de situações de violência física, abuso psicológico, e tantas situações às quais somos expostas. Precisamos acompanhar grupos que lutam pelos direitos das mulheres, nos informar, participar ativamente – que seja numa comunidade, numa Igreja, em uma rua. Ajudar, da maneira que estiver ao nosso alcance. Devemos olhar, nos atentar, nos ajudar. E o que talvez seja o mais difícil, devemos lutar para que futuras gerações não vivam mais esses números. A violência contra mulher é só o último estágio de uma série de violência que sofremos durante toda a vida. É o último nível de repressão ao qual estamos expostas. É a consequência final de toda uma cultura que é perpetuada geração a geração, que sempre nos coloca como seres inferiores.

A nossa luta deve ser pelo direito à dignidade. Só estaremos seguras quando formos respeitadas como seres individuais e livres, dignas de respeito e do direito à vida, seja ela como for. Um dia vi uma frase em um muro que dizia o seguinte: “O feminismo é a ideia radical de que mulher é gente”. E é isso, o emponderamento feminino é a luta para sermos vistas e tratadas como gente. Quanto mais perto estivermos dessa visão, mais seguras estaremos. Que não tenhamos vergonha de corrigir, de ensinar e de lutar. Que tenhamos coragem de desafiar e de nos expor. A luta é longa, mas a vitória há de ser compensadora. Façamos valer as lutas passadas e não nos intimidemos. Hoje nós ainda vivemos com medo, mas assim como hoje jogamos futebol, há de chegar o tempo em que mulheres não sentirão medo de ser mulheres.

Thatyana Oliveira

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