REFLEXÃO ORTAÉTICA - ANTROPOFAGIA NATALINA

por - 27 novembro

ANTROPOFAGIA NATALINA
O natal é de uma significância tão profunda em diferentes sociedades e culturas que não se resume apenas a um dia, mas todo um período de reflexão, de simbologias e especialidades no trato humano.
by Nisargadatta Maharaj
Faço um paralelo entre o movimento modernista mais significativo da história da arte brasileira, o movimento antropofágico, com a magia que envolve o natal; mesmo distintos; ambos são referenciais na percepção da vida.
O escritor Oswald de Andrade e a pintora Tarsila do Amaral, artistas brasileiros, líderes desse movimento, na primeira metade do século XX, enfatizaram uma produção artística e cultural que comungasse de uma retórica genuinamente brasileira, ou seja, uma forma de, poeticamente, devorar nossos costumes, nossa brasilidade, inquietudes e originalidade; consequentemente vieram à tona características marcantes em diferentes linguagens artísticas, como o negro, o mulato, o trabalhador, o desenvolvimento industrial, os talentos do nosso país, a fauna, a flora, os migrantes e diversos outros temas que colocaram a percepção dos contextos daquela época em primeiro plano; uma tentativa bem sucedida de apurar o olhar com a estética do dia a dia.
Como conceber o conceito antropofágico nos dias atuais? Distante de um nacionalismo exacerbado, tão na moda atualmente, o ser antropofágico é, sobretudo aquele que reconhece suas origens e se alimenta metaforicamente dela, de suas possibilidades ainda não experimentadas, inclusive a percepção social perante o que está ao nosso redor, nossa empatia que pode ter ressecado mais do que uva-passa do arroz, na mesa da ceia de natal, diante de radicalismos entorpecentes que presenciamos ao longo do ano; enfim, tudo que pode e deve ser instigado para um mundo mais humano, durante todo o ano, deglutimos nesse período para deixar ainda mais latente, o que a rotina, pode ter, outrora, anestesiado.
Se o movimento antropofágico fez a produção cultural do Brasil olhar para si mesmo, enquanto nação, o natal, como tradição cultural, nos faz anualmente olhar para dentro de nós mesmos, de modo a absorver cronologias de nossas vidas, reconstruir sentimentos e celebrar uma nostalgia que nos é peculiar.
Quem nunca pensou naquele ente querido que já não faz parte desse plano? Quem nunca se pegou chorando de saudades por recordar natais de outras épocas e momentos em família? Quem nunca repensou certas atitudes nessa época do ano? O fato é que independentemente da sua religião, o natal é um período em que, muito mais do que se enfeitar casas, praças, ruas e centros comerciais, é um período de nascimento de muitos outros observatórios de nossa própria vida.
Mas há também quem diga que esse período é o mais hipócrita do ano onde vários lobos vestem suas peles de cordeiro para posarem de santos. Que cada um de nós façamos nossa percepção sobre o caminho que caminhamos, nossa vocação, nossas virtudes e acima de tudo nosso ser/estar no mundo.
Tiago Ortaet é arte/educador, escritor e diretor teatral, atualmente está diretor de direitos humanos na cidade de Guarulhos, colunista e professor universitário.

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