UM CONTO CINE-ESCOLAR E O TEMA DA REDAÇÃO DO ENEM 2019

por - 03 novembro

Era por volta das 8h da manhã, ao adentrar a sala de aula, do terceiro ano do ensino médio, como de costume, os adolescentes estavam com fones de ouvido, jogando cartas, mexendo nos seus celulares e alguns até dormindo, debruçados sob as carteiras escolares. Fiz a liturgia pedagógica de sempre e pautado no afeto, me dirigi a cada um deles para cumprimentá-los e pedir atenção para nosso encontro que já iria começar. A grande maioria, muito recíproca com o gesto de pessoalidade, acatou a orientação e já estava mais disposta a comungar daquele conhecimento que experimentaríamos juntos.
Mas sempre há os mais resistentes que demonstram aversão ao conhecimento. Existem inúmeras causas para isso acontecer... É triste, mas é fato, muitos jovens não dão valor para o bem mais precioso que podemos ter; o conhecimento.
O papel do educador se torna ainda mais árduo quando nitidamente se percebe a ausência das famílias no processo de ensino/aprendizagem, falta acompanhamento, falta presença!
É como se um médico tivesse que lhe convencer o tempo todo que é importante você fazer o tratamento ou que praticamente lhe implore por atenção em seu local de atendimento ou que ele precise insistir muito pra você entender que ele estudou bastante pra avaliar aquilo que está lhe recomendando, como se o médico ainda tivesse que provar pra você que o remédio fará efeito... Seria um absurdo pensar que esse seja o papel de um médico não é? Mas esse tem sido o papel de milhares de educadores Brasil afora e poucos se preocupam com isso. Tudo é culpa do professor!
Todo educador que se preze e zele pelo conhecimento germinado em sala de aula, sempre tenta enriquecer a pauta da aula com diferentes formatos e não só o “falar o tempo todo”. Pensando nisso, nos encontros anteriores já havia levado um panorama desenhado com aspectos do cinema, tinha sobre minha caixa de cacarecos um livro sobre a história da televisão brasileira (para consulta), um DVD do longa metragem “O garoto” de Charlie Chaplin (1921) que assistimos com análise histórica, bem como imagens do cinema novo e um questionário para eles preencherem com uma pesquisa de campo sobre a relação intimista e familiar com o cinema brasileiro. As aulas passavam e nas semanas seguintes, fomos ainda mais além; pesquisamos e debatemos outros aspectos do cinema brasileiro, suas variáveis de fomentos, formatos, gêneros, investimentos públicos, privados e processos de produção em economia criativa. Discutimos inclusive o papel da Agência Nacional de Cinema - ANCINE na democratização do cinema no Brasil.
Diante desse ciclo de experiências que tivemos e outras que ainda estavam por vir (que já haviam sido expostas no planejamento do bimestre aos estudantes) existia uma parte da turma que se interessava bastante pelo assunto, outra parte, apenas executava o que fora pedido, cumprindo tabela, mas havia um pequeno grupo que não se manifestava, não se conectava em absolutamente nada, mesmo com aulas teóricas, práticas, demonstrativas, consultivas, internas ou externas, nada os chamava atenção, apenas o trivial, seus celulares e sono, muito sono... Uma das estudantes gritava em sala de aula, durante minha explicação, de forma acintosa para prejudicar o entendimento dos demais; mesmo eu tendo pedido diversas vezes sua atenção, ela ignorava com seu olhar de deboche; foi aí que lhe propus: “Se você não está interessada no tema, por favor, vá até a sala da direção e lá conversamos” Ela saiu e teve a solidariedade de sua amiga que lhe acompanhou com grunhidos demonstrando que estava de saco cheio daquele assunto, pra ela, muito chato.
Naquela oportunidade, a estudante aproveitou a sua passagem pela direção para fazer uma denúncia contra esse professor “o conteúdo que o professor Ortaet está passando é de sexto ano e eu não tenho nenhum interesse"
Fiquei bastante surpreso pela atitude da aluna, que em nenhum momento preferiu dialogar comigo; mas ainda assim expliquei à ela a importância daquela temática e que poderia, um dia, vir a ser pauta do ENEM, dada sua grande relevância. Poucos dias depois, ME DEPARO COM A NOTÍCIA DE QUE A REDAÇÃO DO ENEM FOI SOBRE A DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO AO CINEMA NO BRASIL.
O que fica de lição? Aprender sempre será um gesto de confiança, diálogo e respeito. Arrogância é um mal que nos impede de enxergar a diante.

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