ARTIGO DA SEMANA

por - 06 dezembro


Massacre no Baile

Antes de expressar qualquer juízo de valor, o que é legítimo em minha atuação como colunista que analisa fatos do cotidiano, prefiro, antes, descrever um ciclo de cenas factuais que fizeram muitas famílias chorarem nos últimos dias.

Uma avenida, no meio da segunda maior comunidade da periferia de São Paulo, transbordando mais de 5 mil jovens em seus becos, travessas e vielas. Um grupo de policiais decide entrar no meio da multidão à procura de dois bandidos, que em fuga, se evadiram para o baile à céu aberto (segundo versão oficial). O desfecho dessa história é a morte precoce de 9 jovens, 9 famílias devastadas e a inauguração de mais um júri virtual que acusa e condena, de ambos os lados.

Há versões conflitantes, muitas irresponsabilidades apontadas... É preciso entender os meandros desse massacre com sobriedade.

Não tem como iniciar essa reflexão sem antes pensar em dados mínimos da falta de lazer e de atividades culturais nas periferias de todo o país. A falta de políticas públicas para a juventude instiga a criação desses bailes. Em Paraisópolis não há ação cultural do poder público: bibliotecas, salas de cinema, centros culturais, shows acessíveis ou projetos culturais propostos pelas gestões municipal, estadual, federal.   

Todos sabemos que onde o poder público se ausenta o poder paralelo do tráfico de drogas faz morada e utiliza desses encontros juvenis para se estabelecerem. Seria ingenuidade achar que não; contudo, vale refletir que adolescentes de 14, 15, 16 anos não deveriam freqüentar bailes promíscuos como estes, a omissão das famílias perante a criação de seus filhos, deve ser observada. Eu passei toda a infância em comunidade e toda a adolescência na periferia da cidade e minha mãe nunca permitiu que eu freqüentasse locais que ela suspeitasse das práticas e condutas daquele ambiente. 

Abordo esse subtema porque li muitos comentários radicais nas redes sociais, de internautas querendo justificar as mortes por conta da presença de menores no baile de rua. É inadmissível querer justificar um erro com outro muito pior. Não acho que aquele seja um ambiente adequado para menores de idade, mas em hipótese alguma é possível minimizar a conduta de quem de fato causou as mortes. Atitudes desse senso comum apenas criminalizam a periferia. A história de cada um daqueles jovens, noticiadas nos telejornais de todo o país, mostram que eram jovens trabalhadores, cheios de sonhos e que apenas buscavam uma atividade de lazer para se divertirem.

Seguindo os rastros de irresponsabilidades dessas tristes mortes, temos uma ação desastrosa desses policiais militares (como analisado publicamente pelo próprio ouvidor da polícia militar) que não mediram as conseqüências em adentrar numa multidão e sair atirando, espancando quem estivesse pela frente com golpes de cassetete, chutes e tapas no rosto, encurralando uma multidão em vielas e becos como mostram os vídeos registrados por moradores. 

Quanto mais a investigação avança, mais cruel se tornam os detalhes desse massacre. Últimas notícias dão conta de que ligações com pedidos de socorro foram ignoradas e outras foram interrompidas pelos agentes presentes no local. Debochar, desdenhar de vários pedidos de socorro é muito sadismo e desumanidade.Parte superior do formulário

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Faço uma provocação para pensarmos juntos: Será que nas festas de músicas eletrônicas, as chamadas “raves” freqüentadas majoritariamente pela elite, não há drogas? Não há traficantes vendendo drogas?” Vocês já ouviram noticias de policias entrando nessas festas e encurralando todos no porrete??? Não! Não viram. Nem vão ver. A truculência seletiva e institucional tem endereço certo, tem tom de pele como alvo. Isso é inegável. As estatísticas provam isso. 

Muitos dirão “mas nesses bailes só tem bandido” outros dirão “Todo policial é violento e agressor” generalizações são estúpidas por natureza.... Que a justiça apure rigorosamente mais esse triste capítulo da periferia de São Paulo.


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